O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, teceu duras críticas aos Estados Unidos, acusando-os de não possuírem um interesse genuíno em um acordo nuclear com o país persa. Em uma coletiva de imprensa realizada na Embaixada iraniana em Brasília, o diplomata afirmou que as negociações têm sido constantemente sabotadas, atribuindo essa postura a motivações geopolíticas mais amplas por parte de Washington e de Israel.
Acusações sobre o Acordo Nuclear e Busca por Mudança de Regime
Nekounam detalhou que um encontro de especialistas em questões nucleares, agendado para Viena sob os auspícios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), foi novamente prejudicado. Segundo o embaixador, as mesas de negociação são atacadas repetidamente pelo que ele chamou de “regime sionista” (Israel) e pelos EUA. Para o Irã, essas negociações servem apenas como uma “farsa” para encobrir um objetivo maior: promover a “mudança de regime” em Teerã. Essa visão seria parte de uma postura americana que se considera “dona do mundo”.
O diplomata não poupou críticas diretas à liderança americana, declarando que o atual presidente dos EUA se comporta como “o rei do mundo”. Embora reconheça que alguns países possam aceitar tais alegações por conveniência, Nekounam enfatizou a busca contínua do Irã por sua independência, uma trajetória que, segundo ele, já dura 47 anos. A agressão iraniana tem, para analistas consultados pela Agência Brasil, um duplo propósito: conter a expansão econômica da China, vista como ameaça pelos EUA, e consolidar a hegemonia política e militar de Israel no Oriente Médio.
Em contrapartida, Tel Aviv e Washington argumentam que suas ações contra o Irã são de natureza “preventiva”, baseadas na alegação de que o país estaria desenvolvendo um programa de armamentos nucleares que representaria uma ameaça a Israel. O Irã, por sua vez, sempre defendeu que seu programa nuclear tem exclusivamente fins pacíficos, refutando as acusações sobre artefatos bélicos.
Estabilidade e Soberania Iraniana em Foco
Abdollah Nekounam também abordou a recente transição de poder no Irã após o assassinato do Líder Supremo Ali Khamenei, ocorrido no sábado anterior à coletiva. Ele ressaltou a agilidade e a eficácia com que o país conseguiu substituir o comando máximo, instituindo um Conselho de Liderança Interino. Essa medida, segundo o embaixador, assegurou a continuidade, firmeza e poder da defesa nacional, afastando qualquer especulação sobre uma descontinuidade na estrutura de poder estatal iraniana.
O embaixador garantiu que o Irã permanece um país soberano e plenamente funcional, com sua administração e gestão em vigor e em pleno vigor. A rápida organização após o chocante evento demonstrou a resiliência do Estado iraniano em manter a estabilidade e a capacidade de defesa, mesmo diante de um golpe tão significativo.
O Questionamento da Legitimidade Global Americana
Elevando o tom em seu discurso, o embaixador iraniano questionou a própria legitimidade dos Estados Unidos para “administrar o planeta”, utilizando como exemplo o caso dos arquivos de Jeffrey Epstein. Ele argumentou que figuras envolvidas nos escândalos de abuso sexual e tráfico de pessoas revelados pelos arquivos Epstein não possuem a moral ou o valor para supervisionar a soberania mundial.
Nekounam foi enfático ao afirmar que o mundo tem um valor muito superior para ser gerido por “reis” cujos nomes estão cada vez mais implicados nos arquivos de Epstein. As relações do financista com a elite política americana, incluindo figuras como o ex-presidente Trump, têm gerado sérios abalos políticos nos EUA e entre seus aliados, minando a percepção de integridade de lideranças globais.
A Posição do Brasil e o Direito à Defesa do Irã
Questionado sobre a postura do Brasil em relação ao conflito, Abdollah Nekounam expressou gratidão pela manifestação do Ministério das Relações Exteriores brasileiro (MRE), que condenou o uso da força por Israel e pelos EUA. O embaixador classificou a ação do governo brasileiro como “valorosa”, por dar atenção aos princípios de soberania, integridade territorial e independência dos governos.
Por fim, o diplomata defendeu o direito do Irã de atacar bases militares de seus adversários. Ele justificou as ações iranianas como legítima defesa, argumentando que o país foi atacado e, portanto, age em resposta. Nekounam assegurou que as operações são direcionadas exclusivamente contra bases militares dos EUA e centros do “regime sionista”, enfatizando que não representam ataques a territórios de países vizinhos ou amigos, evitando, assim, desentendimentos com nações da região.


