A recente reunião de dois dias dos principais diplomatas do BRICS, em Nova Delhi, Índia, concluiu sem a esperada declaração conjunta, um indicativo das profundas divergências que permeiam o bloco de economias emergentes. O encontro, que reuniu representantes dos 11 países-membros – incluindo Irã e Emirados Árabes Unidos –, resultou apenas em uma nota da presidência indiana, que não hesitou em expor as fraturas internas do grupo, especialmente no que tange à situação no Oriente Médio.
As Raízes da Divergência: Conflito no Oriente Médio
O principal obstáculo para o consenso emergiu das tensões na região do Oriente Médio e da Ásia Ocidental. Teerã buscava que o BRICS emitisse uma condenação explícita à guerra que acusa Estados Unidos e Israel de conduzirem contra o Irã. Adicionalmente, o Irã fez sérias acusações contra os Emirados Árabes Unidos, alegando envolvimento direto em operações militares hostis. Segundo o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, um dos membros do BRICS teria vetado partes da declaração conjunta, referindo-se implicitamente aos Emirados, que são aliados estratégicos dos EUA na região. Araqchi enfatizou que, embora o Irã tenha atacado bases e instalações militares americanas localizadas em território emiradense desde o início do conflito em fevereiro, não havia intenção de hostilidade direta contra os Emirados como nação, expressando esperança por um futuro entendimento quando os líderes se reunirem novamente.
O Papel da Índia e a Nota Presidencial
Na ausência de um documento de consenso, a Índia, como país anfitrião e atual presidente do bloco, emitiu uma "nota da presidência" que delineou os pontos de discussão e as áreas de divergência. O comunicado indiano reconheceu abertamente as "opiniões divergentes entre alguns membros" sobre a complexa situação regional. Apesar do impasse sobre a declaração conjunta, a nota da Índia afirmou que os membros manifestaram suas posições e compartilharam uma gama de perspectivas sobre temas cruciais. Entre os pontos discutidos, destacam-se a necessidade de uma resolução rápida de crises, o valor inestimável do diálogo e da diplomacia, o respeito à soberania e à integridade territorial, a defesa do direito internacional, a garantia de um comércio marítimo seguro e desimpedido, e a proteção de infraestruturas e vidas civis.
Apelo à Unidade Global e a Questão Palestina
Além das tensões regionais, a nota da presidência indiana também abordou desafios globais mais amplos, instando o mundo em desenvolvimento a permanecer unido para enfrentá-los. Os ministros enfatizaram a importância do "Sul Global" como uma força motriz para mudanças positivas, reconhecendo os desafios internacionais que vão desde crescentes tensões geopolíticas e dificuldades econômicas até mudanças tecnológicas, medidas protecionistas e pressões migratórias. Em relação à Faixa de Gaza, os ministros do BRICS reiteraram que a região é uma parte inseparável do Território Palestino Ocupado, destacando a necessidade de unificar a Cisjordânia e Gaza sob a Autoridade Palestina e reafirmando o direito do povo palestino à autodeterminação e a um Estado independente. Contudo, mesmo neste ponto, a declaração registrou reservas de um membro não identificado sobre alguns aspectos da seção referente a Gaza, evidenciando a persistência de visões distintas dentro do grupo.
BRICS: Uma Estrutura em Expansão e Suas Implicações
O bloco BRICS, que atualmente compreende 11 países-membros – África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Índia, Irã e Rússia – tem se expandido e agora conta também com dez países-parceiros. Esta nova modalidade, criada durante a Cúpula de Kazan, na Rússia, em outubro de 2024, permite a participação de nações como Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã nos encontros e debates. A principal distinção reside no poder de deliberação: apenas os países-membros possuem direito a voto, por exemplo, para ratificar uma declaração final. Esta estrutura mais abrangente, embora promova a inclusão, também adiciona camadas de complexidade aos processos decisórios, como demonstrado pela dificuldade em alcançar um consenso na reunião diplomática mais recente.
O resultado da reunião em Nova Delhi sublinha os desafios inerentes a um bloco tão diverso quanto o BRICS, que reúne economias com diferentes alinhamentos geopolíticos e interesses estratégicos. Embora a ausência de uma declaração conjunta possa ser vista como um revés, a emissão de uma nota da presidência e o diálogo contínuo sobre questões globais e regionais reafirmam o papel do BRICS como um fórum crucial para o Sul Global. A expectativa agora se volta para a próxima cúpula de líderes, onde se espera que, apesar das atuais fricções, um entendimento mais profundo possa ser alcançado, solidificando a coesão e a influência do grupo no cenário mundial.


