O cenário global da Inteligência Artificial (IA) está se desenhando em meio a disputas por hegemonia tecnológica e modelos de governança divergentes. Nesse contexto estratégico, o Brasil emerge como um ator com potencial significativo, tendo recentemente se unido a outras 28 nações na formação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico). Esta iniciativa, sediada em Xangai, China, e anunciada em julho deste ano, propõe uma abordagem de código aberto para o desenvolvimento da IA, contrastando com o projeto estadunidense, conhecido como Pax Silica, que foca no controle de cadeias de suprimento e reúne “aliados confiáveis” de Washington.
A adesão brasileira à Waico é vista por especialistas como uma oportunidade crucial para o país consolidar sua soberania digital. Contudo, essa aliança requer mais do que mera participação; exige um robusto investimento interno em infraestrutura e desenvolvimento de capacidade, delineando um caminho complexo, mas promissor, para a autonomia tecnológica nacional.
Waico: A Proposta Chinesa de Governança Aberta
A Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico) representa uma visão alternativa para a governança global da IA, priorizando modelos de código aberto. Essa filosofia permite que empresas e organizações de qualquer porte se apropriem da tecnologia, fomentando a inovação e a inclusão em escala global. A iniciativa liderada pela China visa democratizar o acesso e o desenvolvimento de IA, oferecendo uma plataforma para a colaboração internacional em um campo que está rapidamente se tornando um pilar do poder econômico e geopolítico.
Ao se alinhar com a Waico, o Brasil sinaliza um interesse em modelos de cooperação que potencialmente reduzem a dependência de tecnologias proprietárias e promovem um ecossistema mais diversificado de inovação. Este movimento contrasta diretamente com estratégias que buscam concentrar o controle da IA em poucos polos, como a Pax Silica, liderada pelos Estados Unidos.
A Construção da Soberania Digital Brasileira em IA
Apesar do potencial da Waico, a mera participação não garante a soberania digital do Brasil. Especialistas como Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), enfatizam a necessidade de uma “lição de casa” interna. Ele argumenta que o Brasil possui um vasto território e centros de pesquisa universitários de excelência, recursos que o colocam em uma posição vantajosa para desenvolver uma estratégia autônoma em IA.
Para absorver efetivamente o conhecimento e as oportunidades oferecidas pela cooperação internacional, é imperativo que o Brasil invista em sua própria infraestrutura crítica de IA e em mecanismos de soberania sobre os dados gerados no país. Amadeu exemplifica essa lacuna, explicando que grande parte dos recursos destinados a projetos de IA em universidades seria absorvida por contratos de armazenamento em nuvem de grandes empresas de tecnologia, estrangeiras ou mesmo chinesas, em vez de fomentar a expertise e infraestrutura nacionais para processamento e armazenamento de dados, essenciais para um poder computacional robusto.
IA como Vantagem Geopolítica e Econômica
Ettore Arpini, especialista em governança de IA e fundador da organização Plures, reitera que o Brasil detém a capacidade de atuar como um mediador estratégico na geopolítica da IA, transitando entre as iniciativas chinesas e ocidentais. Ele defende que a IA não deve ser percebida como um setor isolado, mas sim como uma vantagem geopolítica e econômica transversal, capaz de impulsionar a prosperidade nacional de forma sem precedentes. Essa visão estratégica transcende a simples regulamentação de mercado, posicionando a IA como um pilar fundamental para o desenvolvimento do país.
O Posicionamento Multilateral do Brasil na Geopolítica da IA
O governo brasileiro tem articulado uma postura independente, evitando a dependência exclusiva de qualquer modelo, seja oriental ou ocidental. A estratégia nacional foca no diálogo com todas as iniciativas que contribuam para a soberania digital do país. Em fóruns multilaterais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido ativamente uma governança intergovernamental da IA, onde todas as nações tenham voz e assento à mesa, evitando que a tecnologia se torne um privilégio de poucos ou um instrumento de manipulação.
Essa visão ressoa com a posição do secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, que, presente no lançamento da Waico, descreveu a IA como a “maior oportunidade da humanidade no século XXI”, mas também como um de seus maiores riscos. Guterres sublinhou que a tecnologia que moldará o futuro da humanidade deve ser moldada por toda a humanidade, não por um punhado de países ou empresas, reforçando a urgência de uma abordagem inclusiva e global.
A Divergência de Modelos: Pax Silica versus Waico
A contraposição entre a Waico e a Pax Silica ilustra a polarização estratégica na governança da IA. Enquanto a Waico, liderada pela China, promove um ecossistema de código aberto e cooperação ampla, a Pax Silica, encabeçada pelos Estados Unidos, adota uma abordagem focada no controle. Washington enxerga a IA como um pilar da estrutura de poder global e, através da Pax Silica, busca controlar as cadeias de suprimento de semicondutores, minerais críticos, dados e energia essenciais para o funcionamento da IA, limitando essa colaboração a um círculo de “aliados confiáveis”.
Essa diferença fundamental de filosofia entre os dois blocos globais define os desafios e as oportunidades para países como o Brasil. A escolha ou a habilidade de transitar entre essas abordagens impactará diretamente a capacidade de desenvolver tecnologia proprietária, garantir a segurança de dados e participar ativamente da economia digital global.
O Brasil encontra-se em um momento estratégico para definir seu futuro na era da Inteligência Artificial. A adesão à Waico oferece uma rota para a cooperação e o acesso a tecnologias de código aberto, mas o caminho para a soberania digital exige um compromisso inabalável com o desenvolvimento interno. Investir em infraestrutura própria, fomentar a pesquisa nacional e consolidar uma estratégia autônoma são passos cruciais para que o país não apenas absorva conhecimento, mas também se posicione como um protagonista na construção de uma governança global de IA mais equitativa e inclusiva, transformando essa tecnologia em uma poderosa alavanca de prosperidade e autonomia para sua população.

