Brasil Adota Pragmatismo Bilateral Diante da Ascensão da Direita na América Latina

Dinael Monteiro
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© Marcelo Camargo/Agência Brasil

O cenário político latino-americano experimenta uma notável transformação, marcada pela ascensão de governos de direita e extrema-direita em diversas nações. Diante dessa nova realidade, o Brasil, que junto com o Uruguai representa o campo progressista na região, tem reorientado sua política externa. A estratégia brasileira agora foca em um pragmatismo bilateral, priorizando agendas de interesse comum que transcendam as divergências ideológicas e fortaleçam a cooperação em áreas essenciais para o desenvolvimento e a estabilidade regional.

A Nova Configuração Política Regional

Nos últimos meses, a América do Sul testemunhou uma série de resultados eleitorais que redesenharam seu mapa político. Vitórias como as de Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo De La Espriella, na Colômbia, somadas às eleições de representantes de direita no Chile, Equador e Bolívia no ano anterior, consolidaram uma tendência conservadora na região. Essa virada deixou o Brasil e o Uruguai em uma posição de menor representatividade no espectro progressista, exigindo uma adaptação estratégica na forma como o país se relaciona com seus vizinhos.

Estratégia Brasileira: Foco no Pragmatismo Bilateral

Em resposta a essa mudança de panorama, o governo brasileiro aposta em uma política de relações bilaterais que prioriza o diálogo sobre temas concretos, distanciados de inclinações ideológicas. Áreas como infraestrutura, segurança energética, combate ao crime organizado transnacional e cooperação na resposta a desastres naturais são consideradas pilares dessa abordagem. Essa perspectiva busca garantir a continuidade e o aprofundamento das parcerias, reconhecendo que os interesses nacionais de cada país podem convergir em projetos de benefício mútuo.

Exemplos recentes ilustram essa diretriz. O presidente do Chile, José António Kast, expressou interesse em um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula do Mercosul, sinalizando uma disposição para o diálogo. Da mesma forma, o pedido de auxílio de Rodrigo Paz à Bolívia em meio a protestos e a resposta cordial do presidente eleito da Colômbia à manifestação de Lula por sua vitória demonstram que, para além das orientações políticas, prevalece a busca por interesses concretos. Investimentos em infraestrutura, como projetos que conectem os oceanos Pacífico e Atlântico, e o fortalecimento da segurança energética global, evidenciada após conflitos geopolíticos, são pautas centrais que transcendem as ideologias. A única exceção notável a essa abordagem pragmática seria a postura mais hostil adotada pelo governo de Javier Milei na Argentina em relação ao Brasil.

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Desafios e Preocupações de Especialistas

Apesar da confiança do governo brasileiro na manutenção das relações bilaterais, analistas apontam para a delicadeza da nova configuração geopolítica. Roberto Goulart Menezes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), alerta que a ascensão de líderes com perfis de extrema-direita, que se afastam da direita convencional, pode gerar complexidades. Ele observa que a cooperação em temas cruciais, como a proteção ambiental na Amazônia, pode ser afetada. Anteriormente, a colaboração entre Brasil e Colômbia na agenda amazônica era robusta, culminando na Cúpula da Amazônia em 2023. Esse diálogo, contudo, corre o risco de ser fragilizado.

Outro ponto de preocupação levantado por Menezes é a defesa da democracia no continente, um tema que pode sofrer reveses com o avanço de governos mais autoritários. As relações comerciais dos países latino-americanos com a China, frequentemente alvo de pressão dos Estados Unidos, também se inserem nesse cenário complexo. O Brasil e o Uruguai, ao não se alinharem a uma agenda “pró-Trump”, encontram-se em uma posição relativamente isolada em relação a essa dinâmica continental.

O Esvaziamento da Cooperação Multilateral

Ainda que as relações bilaterais sejam vistas como viáveis, o governo brasileiro reconhece que a cooperação coletiva em nível multilateral tornou-se consideravelmente mais desafiadora. A predominância de governos alinhados à política dos Estados Unidos dificulta a construção de uma agenda regional autônoma, sem a influência ou autorização de Washington. Consequentemente, foros de integração como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) tendem a perder força e relevância, esvaziados de seu potencial de articulação conjunta em prol de interesses regionais mais amplos.

Conclusão

Em síntese, o Brasil navega um cenário geopolítico complexo na América Latina, onde a ascensão de forças de direita e extrema-direita impõe a necessidade de uma política externa mais adaptável. A aposta no pragmatismo bilateral surge como uma resposta estratégica para preservar e impulsionar relações essenciais com países vizinhos, focando em interesses concretos e mutuamente benéficos. Contudo, essa reorientação vem acompanhada de desafios consideráveis, especialmente no que tange à cooperação ambiental, à defesa da democracia e à vitalidade de plataformas multilaterais, cujas capacidades de atuação se veem hoje significativamente limitadas.

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