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Caminhada do Silêncio em SP Clama por Justiça e Memória contra a Violência de Estado

Dinael Monteiro
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© Paulo Pinto/Agencia Brasil

A 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado tomou as ruas da capital paulista no último domingo, 29, reunindo centenas de pessoas em um ato que transcendeu a mera homenagem. Organizada pelo Movimento Vozes do Silêncio – uma colaboração entre o Instituto Vladimir Herzog e o Núcleo de Preservação da Memória Política –, a manifestação transformou-se em um poderoso clamor por memória, verdade e justiça, conectando as atrocidades do passado ditatorial com as persistentes violações dos direitos humanos na atualidade.

Um Percurso Simbólico pela Memória e Resistência

O cortejo teve início em um local carregado de simbolismo: a Rua Tutóia, em frente ao antigo prédio do DOI-Codi/SP, um dos mais infames centros de repressão e tortura durante a ditadura militar (1964-1985). Dali, os participantes seguiram em silêncio pelas ruas da zona sul, sob a discreta escolta da polícia militar, em direção ao Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, localizado no Parque Ibirapuera. Este trajeto representou não apenas uma lembrança dos que foram silenciados, mas também uma denúncia da continuidade de práticas autoritárias e da necessidade de vigilância constante em defesa da democracia.

A iniciativa, que reuniu familiares de vítimas, movimentos de direitos humanos e mais de 30 organizações da sociedade civil, utilizou o mote “aprender com o passado para construir o futuro”. A proposta foi além de rememorar os crimes da ditadura, enfatizando a relevância de se analisar como essas violências de Estado se perpetuam e se manifestam décadas após a redemocratização do país.

A Perenidade da Violência de Estado: O Passado no Presente

A Caminhada do Silêncio busca desmistificar a percepção de que a ditadura militar é um capítulo isolado da história brasileira. Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, destacou a importância de compreender os impactos duradouros daquele período. Ela argumentou que, no imaginário coletivo, a ditadura é frequentemente vista como algo estanque, cujas consequências ficaram no passado, o que impede uma análise crítica de como suas heranças afetam o presente e moldam o futuro.

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Desafios para uma Democracia Inclusiva

Rodrigues pontuou que o lema da caminhada convida à reflexão sobre como os vestígios do autoritarismo ainda se fazem sentir na sociedade contemporânea. Para ela, é fundamental questionar a construção da democracia atual, que, segundo sua análise, não se mostra suficientemente igualitária para uma parcela significativa da população. A manifestação se propõe, assim, a conectar passado e presente de forma objetiva, permitindo que a sociedade visualize as raízes históricas das desigualdades e injustiças persistentes.

Recomendações Não Cumpridas da Comissão da Verdade

Um dos caminhos apontados para avançar no campo da memória, verdade e justiça são as 49 recomendações propostas pela Comissão Nacional da Verdade ao Estado brasileiro. Lorrane Rodrigues lamentou que, desde seu lançamento, poucas ou apenas parcialmente cumpridas, as propostas demonstram a lentidão e a resistência em lidar com o legado da impunidade. O monitoramento bianual realizado pelo Instituto Vladimir Herzog revela avanços modestos, muito aquém do que as recomendações buscam para a construção de uma sociedade mais justa.

Ataques à Democracia e a Luta por Impunidade

Em nota, Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, reafirmou que a Caminhada do Silêncio surgiu como uma resposta coletiva contra o autoritarismo e as tentativas de apagamento da história. Ele frisou que a ditadura militar legou uma cultura de impunidade que ainda reverbera na violência de Estado observada no Brasil. Sotilli enfatizou a necessidade de retomar o espírito de resistência, especialmente em tempos de crescentes ataques à democracia, quando a defesa do Estado democrático de direito tem sido delegada principalmente às altas instituições.

O Debate sobre a Lei da Anistia e Crimes Permanentes

Neste ano, um novo elemento adicionado à pauta dos movimentos foi a discussão levantada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A possibilidade de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos que envolvem crimes permanentes, como a ocultação de cadáveres, foi destacada pelas entidades. Essa perspectiva oferece uma nova esperança para que crimes hediondos cometidos durante a ditadura militar e que ainda hoje geram dor e incerteza para as famílias, possam finalmente ser julgados e punidos, rompendo o ciclo de impunidade.

Ecoando Vozes: O Manifesto da Caminhada

Próximo ao encerramento do evento, o manifesto da caminhada foi lido, reafirmando o compromisso com a memória e a resistência: "Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência. Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer." O texto reiterou que "cada vítima de violência do Estado é permanência", sublinhando que a manifestação nasceu da urgência de resistir quando a democracia foi abertamente ameaçada e o autoritarismo deixou de ser apenas uma lembrança para se tornar um projeto. O manifesto concluiu que, mesmo anos depois, a ameaça não desapareceu, apenas se transformou, justificando a continuidade da luta.

A 6ª Caminhada do Silêncio, portanto, solidificou-se como um marco vital na luta pela justiça e contra o esquecimento, evidenciando que a memória é uma ferramenta poderosa para a construção de um futuro democrático e igualitário. O clamor por responsabilização, especialmente diante das recomendações não cumpridas e do debate sobre a Lei da Anistia, ressalta a urgência de uma ação contínua para que as sombras do passado não se projetem indefinidamente sobre o presente.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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