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Dores Menstruais Afetam Rotina Escolar de Milhões de Alunas no Brasil, Revela Estudo Inédito

Dinael Monteiro
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© Douglas Lopes/Divulgação

Um levantamento nacional inédito lança luz sobre o impacto profundo das dores menstruais na vida escolar de estudantes brasileiras. A pesquisa, divulgada na véspera do Dia Internacional da Dignidade Menstrual, revela que alarmantes quatro em cada dez alunas (37,1%) faltam às aulas mensalmente devido a cólicas e outros sintomas. Mais de 60% das meninas que menstruam, tanto do ensino fundamental quanto médio, relatam sentir dores fortes ou moderadas que perturbam sua rotina e exigem o uso de medicação, transformando um fenômeno biológico natural em um significativo obstáculo educacional.

Realizado pelo Instituto Alana em colaboração com o Instituto Equidade.info, o estudo ouviu 2.551 estudantes, 303 docentes e 181 gestores escolares de redes públicas e privadas em todas as regiões do país, coletando dados em fevereiro deste ano. As descobertas sublinham a necessidade urgente de combater o estigma, a pobreza menstrual e, sobretudo, de reconhecer as dores menstruais como uma questão de saúde pública e um desafio coletivo para o sistema educacional.

Absenteísmo e Prejuízos na Trajetória Educacional

A recorrência das dores menstruais acarreta uma perda substancial de dias letivos, com as alunas chegando a faltar, em média, cerca de dois dias por mês. Este absenteísmo não é um mero inconveniente; a líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, Sofia Reinach, alerta para as sérias consequências. Segundo ela, a ausência frequente compromete diretamente a aprendizagem, fragiliza o vínculo da aluna com a escola e pode limitar suas oportunidades educacionais ao longo do tempo. Reinach enfatiza que a perda de um dia de aula mensal por quase 40% das meninas brasileiras representa uma 'desvantagem crônica na aprendizagem' que exige atenção imediata.

Os Sintomas Que Impedem a Presença em Sala de Aula

A cólica menstrual é, de longe, o principal impedimento para a frequência escolar, sendo apontada por 57,7% das entrevistadas como o motivo de suas faltas. No entanto, a gama de sintomas que afetam a capacidade de estudo vai muito além. Cansaço e dores no corpo são citados por 30,1% das alunas, enquanto dores de cabeça afetam 28% e dores de barriga, 20,1%. Além do mal-estar físico, aspectos emocionais e estruturais também contribuem para a ausência: o medo e a vergonha de vazamentos são uma preocupação para 19,3% das estudantes, e a falta de banheiros adequados ou produtos de higiene, para 8,2%.

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Desigualdades Ocultas: O Impacto Racial na Experiência Menstrual

Um recorte racial da pesquisa revela uma disparidade preocupante. Embora as alunas negras relatem menos cólicas de forte intensidade, elas são as que mais faltam às aulas. A análise mostra que meninas negras perdem até 1,5 vez mais dias de aula — entre dois e cinco dias por mês — em comparação com as alunas brancas, entre as quais o índice de faltas por motivos menstruais é de 9,6%. Curiosamente, 37,5% das entrevistadas brancas descrevem suas cólicas como fortes, contra 25,9% das meninas negras, enquanto 16% das alunas negras afirmam não sentir cólicas, em comparação com 8,5% das brancas.

A porta-voz do Instituto Alana, Sofia Reinach, explica que essa aparente contradição se deve à normalização cultural da dor entre as meninas negras. Elas são socialmente ensinadas a subestimar suas dores, o que leva a um limiar de reconhecimento da dor incapacitante mais elevado. Consequentemente, o indicador de dores fortes pode subestimar a real dimensão do problema para este grupo, cujo impacto na rotina e na escola é, na prática, mais severo.

Rumo à Mudança: Recomendações para o Ambiente Escolar

Atualmente, a pesquisa aponta que as ausências relacionadas a sintomas menstruais ainda são tratadas predominantemente como questões individuais, privadas ou inevitáveis. Para reverter esse cenário, o Instituto Alana propõe uma mudança de paradigma, enfatizando a necessidade de reconhecer a dor menstrual como um problema coletivo. Entre as sugestões, destacam-se a adoção de protocolos para faltas justificadas e a implementação de programas de orientação e capacitação para o corpo docente.

Tais medidas visam não apenas reduzir o constrangimento das alunas e melhorar o registro desses casos, mas também promover um ambiente escolar mais acolhedor e inclusivo. Sofia Reinach reforça a importância de profissionais da educação e da saúde “desaprenderem” o antigo viés de que corpos negros sentem menos dor ou são mais resilientes, defendendo que é crucial que a escola se integre a uma rede de cuidado mais ampla, atenta às necessidades e às particularidades de todas as estudantes.

As descobertas do estudo reforçam que a dignidade menstrual vai muito além do acesso a produtos de higiene; ela engloba o reconhecimento da dor como um fator de exclusão e a construção de um ambiente educacional que apoie plenamente o desenvolvimento de todas as alunas. A implementação dessas recomendações é um passo fundamental para assegurar que nenhuma estudante seja deixada para trás por conta de um processo biológico natural.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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