Entre a Seca e a Chuva: Crise Climática Ameaça Tradições Quilombolas e Impulsiona Luta por Justiça

Dinael Monteiro
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© Lula Marques/Agência Brasil.

Em um cenário global de crescente instabilidade climática, as comunidades quilombolas do Brasil emergem como epicentros de vulnerabilidade e resistência. A realidade de Sueli Bessa, agricultora de 39 anos da comunidade quilombola de Nova Esperança, em Baraúna (RN), ilustra vividamente esse desafio. Ela relembra com nostalgia a infância perfumada pela goiaba, uma fruta que hoje escasseia devido aos períodos de seca cada vez mais severos. Sua experiência não é isolada, mas um reflexo da ameaça climática que paira sobre a subsistência e a cultura de centenas de famílias em todo o país. Sueli participou de um encontro nacional de mulheres quilombolas no Gama (DF), onde a justiça climática foi pauta central, atraindo inclusive a atenção do Presidente Lula para as urgentes preocupações das lideranças.

O Impacto Devastador do Clima nas Comunidades Rurais

A comunidade de Nova Esperança, lar de 70 famílias, enfrenta uma drástica alteração em seu ecossistema. Além da goiaba, outras frutas e hortaliças essenciais para a alimentação e a economia local sofrem com a imprevisibilidade do tempo, alternando entre secas prolongadas e temporais devastadores. Essa instabilidade climática tem forçado parte dos moradores a abandonar a agricultura familiar, buscando empregos em indústrias na área urbana, distante mais de 20 quilômetros. A jornada é agravada pela infraestrutura precária: a própria comunidade carece de asfaltamento e CEP, e as tempestades rotineiramente tornam ruas e estradas intrafegáveis. Adicionalmente, a dependência de um poço artesiano, cuja vazão é impactada pela seca, complica o acesso à água e as atividades agrícolas diárias, tornando a vida e o cultivo ainda mais complexos.

Mulheres Quilombolas: Liderança e Resistência na Defesa do Clima

Apesar das adversidades, a resiliência pulsa forte. Sueli Bessa, que sustenta sua família vendendo geleias e compotas, projeta um futuro de empoderamento, sonhando em concluir o ensino médio e cursar enfermagem ou direito para auxiliar sua comunidade. Sua filha, Suelene Ribeiro, de 21 anos, ecoa o mesmo compromisso, participando ativamente de coletivos de mulheres e jovens que monitoram as dificuldades impostas pelas mudanças climáticas. Essa mobilização local ganha eco em nível nacional, onde a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) desempenha um papel fundamental. Durante o encontro no Gama, a Conaq lançou o livro "Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima", uma obra de 120 páginas liderada pela agrônoma e pesquisadora em saúde e meio ambiente, Fran Paula.

A Pesquisa 'Vozes Quilombolas': Denúncias e Estratégias de Salvaguarda

O estudo da Conaq, concebido por Fran Paula, expõe uma realidade alarmante: o avanço de grandes empreendimentos e o desmantelamento de políticas ambientais estão diretamente associados ao aumento de assassinatos de mulheres, as maiores vítimas desses contextos. O livro detalha os impactos da invasão de territórios quilombolas em todos os biomas brasileiros, exacerbando o colapso climático. Para além das denúncias de racismo ambiental, a obra apresenta uma robusta estratégia metodológica, reunindo contribuições práticas para a salvaguarda dos territórios e a conservação ambiental, enfatizando as ações de resistência e o protagonismo das mulheres nessas lutas.

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Fran Paula ressalta que as mulheres quilombolas são as primeiras a sentir os efeitos das mudanças climáticas e as últimas a deixar seus lares, atuando como verdadeiras sentinelas ambientais. Elas monitoram há décadas as alterações, percebendo com antecedência quando os problemas atingem o ápice. A pesquisa documenta como projetos como usinas de energia eólica, exploração de petróleo e minérios, além de monoculturas, embora por vezes apresentados como sustentáveis ou economicamente viáveis, impactam profundamente o modo de vida e a produção tradicional, gerando contaminação generalizada. Essa poluição afeta não apenas a saúde física, mas também os modos de viver e a continuidade das identidades culturais quilombolas, um patrimônio imaterial insubstituível.

A Urgência da Titulação de Territórios para a Justiça Climática

Diante desse cenário complexo, a pesquisadora Fran Paula defende a celeridade na regularização das terras quilombolas como uma medida fundamental e inadiável. Para ela, não pode haver justiça climática sem a garantia e a titularização desses territórios, que são vitais para a proteção ambiental e a manutenção da vida tradicional. A defesa do meio ambiente e o conhecimento ancestral dessas comunidades são cruciais para a mitigação dos impactos climáticos. Um exemplo pungente da urgência é a comunidade de Mesquita, em Cidade Ocidental (GO), onde a produção de marmelo, tradicional e simbólica, está ameaçada, como destacado por Sandra Braga, coordenadora executiva da Conaq. A titulação não é apenas um direito à terra, mas uma ferramenta essencial para a preservação cultural, ambiental e para a construção de um futuro mais justo e sustentável.

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