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Grande Rio e Manguebeat: Pernambuco Desembarca na Sapucaí com Enredo de Resistência Cultural

Dinael Monteiro
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© Fernando Frazão/Agência Brasil

A efervescência cultural de Pernambuco, com a rica lama dos manguezais do Rio Capibaribe, prepara-se para encontrar a realidade da Baixada Fluminense na Marquês de Sapucaí. A Acadêmicos do Grande Rio, escola de samba de Duque de Caxias, mergulhará fundo no universo do movimento Manguebeat em seu desfile, propondo uma poderosa confluência entre duas regiões que, embora distantes geograficamente, partilham histórias de resistência, criatividade e transformação social, conforme vislumbrado pelo carnavalesco Antônio Gonzaga, responsável pelo enredo 'A Nação do Mangue'.

Manguebeat: A Gênese de um Movimento Que Redefiniu o Som Nacional

O Manguebeat, surgido na Recife dos anos 1990, não foi apenas um estilo musical, mas uma filosofia cultural. Inspirado pela biodiversidade e pela simbologia do manguezal, o movimento propôs uma fusão audaciosa de ritmos. Guitarras do heavy metal e do reggae se entrelaçaram com a percussão ancestral do maracatu, do coco e da ciranda, criando uma sonoridade única e inovadora. Bandas icônicas como Mundo Livre S/A e Chico Science & Nação Zumbi foram as pioneiras, utilizando a “lama” não apenas como paisagem, mas como metáfora potente para a fertilidade criativa e a resiliência das periferias, subvertendo a hegemonia cultural do eixo Rio-São Paulo.

O manifesto 'Caranguejos com Cérebro', escrito em 1992 pelo jornalista Fred Zero Quatro, vocalista da Mundo Livre S/A, sintetizou a urgência e o propósito do Manguebeat: “Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife”. Esse apelo por uma revitalização cultural e social através da arte é a essência que a Grande Rio levará para a avenida, celebrando uma cena que reescreveu a história cultural brasileira.

A Conexão Profunda: Mangue de Recife e Baixada Fluminense

A inspiração para o enredo da Grande Rio brotou de uma conversa familiar, revelou Antônio Gonzaga. Nascido em 1994, o carnavalesco, mais jovem que o próprio Manguebeat, teve a ideia após um diálogo com seu pai, Renato Lemos, jornalista e escritor, e um apaixonado por Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. A afeição pessoal pelo movimento, cultivada desde a infância, instigou Gonzaga a explorar a pertinência de levar essa história para o carnaval.

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A verdadeira 'sacada' para consolidar o enredo, segundo o carnavalesco, foi a descoberta de semelhanças geográficas e sociais inquestionáveis entre a região de Duque de Caxias, onde a Grande Rio está sediada e que é também cercada por manguezais, e as periferias de Recife que gestaram o Manguebeat. Essa conexão, entre movimentos de periferia e paisagens naturais marginalizadas, tornou-se o elo perfeito para a narrativa da escola, alinhando-se com o 'modo de fazer carnaval' e o discurso estético da Grande Rio, que frequentemente aborda temas de relevância social e cultural.

A Sapucaí em Cores e Sons: A Tradução do Manguebeat no Desfile

A representação de Pernambuco na Sapucaí será minuciosa e vibrante, prometeu Antônio Gonzaga. O desfile será estruturado em seis setores, com a grandiosidade de cinco carros alegóricos e três tripés, todos concebidos para evocar a riqueza visual e simbólica do Manguebeat e de Recife. Fantasias ricamente detalhadas e alegorias imponentes darão vida à história, enquanto diversas personalidades pernambucanas desfilarão na passarela do samba, consolidando essa ponte cultural e a ambição da Grande Rio pelo bicampeonato.

No quesito sonoro, a bateria da Grande Rio, sob o comando do Mestre Fafá, de 34 anos, promete uma experiência única. Os 270 ritmistas estão preparando um arranjo inovador, inspirado diretamente nas misturas e experimentações rítmicas do Manguebeat. Além disso, a batucada fará referências explícitas ao frevo e ao maracatu, incorporando as 'viagens' musicais de Chico Science para criar um som que transborde alegria e bossa. A própria fantasia da bateria é um tributo direto, representando o bloco afro Lamento Negro, do bairro popular de Olinda, cofundado por Chico Science, reforçando a profundidade da homenagem.

O Eco Social nas Letras do Samba

Além do espetáculo visual e sonoro, o enredo da Grande Rio carrega uma mensagem social contundente, ecoando a voz do Manguebeat. A letra do samba-enredo, cuidadosamente elaborada, fortalece a identificação cultural entre as comunidades que habitam os mangues de Recife e as margens sociais da Baixada Fluminense. Versos como 'Eu também sou caranguejo à beira do igarapé / Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré' transcendem a mera descrição, transformando-se em um hino de reconhecimento e união entre realidades periféricas, onde a luta diária e a criatividade se manifestam com a mesma força vital.

Ao abraçar o Manguebeat, a Grande Rio não apenas presta uma homenagem a um dos movimentos mais originais da cultura brasileira, mas também reitera seu compromisso com narrativas que celebram a identidade, a superação e a arte como ferramenta de transformação. A escola de Caxias promete, assim, um desfile que será uma verdadeira declaração de amor à criatividade periférica, onde a lama vira fertilidade e o lixo vira luxo, tudo isso na maior passarela do carnaval mundial.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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