O estado de São Paulo registrou um alarmante aumento na letalidade policial, com 142 pessoas mortas por agentes em serviço apenas no primeiro trimestre deste ano. O número representa um acréscimo de cinco vítimas em comparação com o mesmo período do ano anterior, intensificando o debate sobre as práticas de segurança pública na região. Além das ocorrências em serviço, as mortes envolvendo policiais de folga também subiram de 29 para 33 no período. Especialistas soam o alerta para o elevado patamar de óbitos decorrentes de intervenções policiais, indicando a necessidade urgente de revisão e aprimoramento das políticas de segurança.
Panorama dos Óbitos por Intervenção Policial
Os dados, compilados pela Agência Brasil a partir de relatórios dinâmicos divulgados pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), revelam uma preocupante escalada. O Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp) do MPSP é o responsável por centralizar e divulgar as estatísticas de Mortes em Decorrência de Intervenção Policial (MDIPs), com informações fornecidas diretamente pelas Polícias Civil e Militar, conforme determinações legais e resoluções da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP).
Detalhando a participação da Polícia Militar, os registros indicam que, em serviço, o número de vítimas da letalidade policial permaneceu em 134 no primeiro trimestre deste ano, o mesmo patamar do ano anterior. Contudo, quando considerados os policiais militares fora de serviço, houve um ligeiro aumento, com 29 pessoas mortas de janeiro a março, três a mais que no mesmo intervalo do ano passado.
Análise dos Especialistas: Causas e Consequências da 'Polícia do Confronto'
Mauro Caseri, ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, enfatiza que uma segurança pública eficaz se define pela redução da violência aliada à preservação de vidas. Em entrevista à Agência Brasil, ele aponta que a ausência de políticas robustas de saúde mental para os agentes, somada à insuficiência de mecanismos efetivos de controle e avaliação do uso da força, são fatores cruciais para a persistência desse cenário de alta letalidade. Caseri complementa que a combinação de baixos salários, sobrecarga de trabalho, frequentemente motivada pelos chamados 'bicos', e o avanço do adoecimento mental na tropa, contribuem para a criação de um ambiente de risco tanto para a população quanto para os próprios policiais. Ele argumenta que essa dinâmica fomenta uma 'polícia do confronto', quando o ideal seria uma instituição voltada para a resolução, e não para a criação, de conflitos.
Reforçando a gravidade da situação, Adilson Santiago, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), avalia que São Paulo enfrenta uma verdadeira crise na segurança pública. Para Santiago, os números de letalidade e violência policial são impressionantes e refletem a incapacidade da corporação, que deveria proteger os cidadãos, mas frequentemente viola direitos. Ele ressalta a existência de um 'apartheid social', onde populações negras e de periferia são desproporcionalmente alvos, sofrendo insegurança justamente por parte daqueles que deveriam garantir a proteção. O presidente do Condepe critica a percepção de despreparo, falta de formação e a ausência de um comando que possa orientar as forças policiais para uma atuação mais humanizada e alinhada às complexas necessidades sociais.
A Trajetória da Letalidade: Contraste de Gestões
Os dados do Ministério Público revelam um contraste marcante na trajetória da letalidade policial. Durante o governo anterior, entre 2019 e 2022, o número de mortes cometidas por policiais militares em serviço apresentou uma queda significativa, passando de 720 para 262, uma redução de 63,6%. Contudo, essa tendência se inverteu drasticamente a partir de 2023, sob a atual gestão estadual, quando o número de vítimas passou a crescer anualmente.
Em 2023, o primeiro ano da administração atual, 357 pessoas foram mortas por policiais militares em serviço, um acréscimo de 95 vítimas em relação ao ano anterior. A escalada continuou em 2024, quando os registros deram um salto para 653 mortes, representando um aumento de 83% em comparação a 2023. A tendência de alta prosseguiu, elevando os registros para 703 mortos no ano subsequente, conforme a progressão dos dados apresentados. O ouvidor da Polícia reitera que o aumento da letalidade não deve ser naturalizado nem encarado como um efeito colateral inevitável da atividade policial, mas sim como um problema estrutural que demanda enfrentamento direto e não pode ser interpretado como indicador de eficiência.
Propostas Urgentes para uma Segurança Mais Humana e Responsável
Diante do cenário preocupante, Mauro Caseri defende a implementação de medidas urgentes para reverter a alta da letalidade policial. Entre as propostas, destacam-se o enfrentamento da precarização das condições de trabalho dos policiais, que inclui a melhoria salarial e a redução da sobrecarga; a efetivação e fiscalização rigorosa do uso das câmeras portáteis pelos agentes, para aumentar a transparência e a accountability das operações; a revisão crítica das práticas operacionais e dos protocolos de uso da força, visando a desescalada de conflitos; e, fundamentalmente, a ampliação da transparência e da responsabilização de toda a cadeia de comando envolvida nas ocorrências.
Essas ações, segundo Caseri, são essenciais para construir uma polícia que seja verdadeiramente protetora, que entenda as complexidades sociais e que opere dentro dos mais altos padrões de respeito aos direitos humanos, evitando a perpetuação de um ciclo de violência que prejudica tanto a população quanto a própria instituição policial.


