Neste 3 de maio, o Brasil e o mundo celebram o centenário de Milton Santos, um dos mais influentes geógrafos da história. Sua vasta obra, que transcendeu fronteiras e disciplinas, continua a oferecer lentes afiadas para compreender as complexas dinâmicas socioeconômicas e urbanas do nosso tempo. Mesmo após seu falecimento em 2001, aos 75 anos, o pensamento de Santos permanece vital, desvelando as intrínsecas relações entre espaço, economia e poder. Um exemplo notável da atemporalidade de suas teorias pode ser observado nas ruas de São Luís, Maranhão, onde o contraste entre grandes redes de supermercados e pequenas feiras populares expõe as profundas desigualdades que moldam o consumo e a vida urbana.
Os Circuitos da Economia Urbana: Uma Análise da Exclusão
O cenário de São Luís, com suas múltiplas realidades comerciais, foi o foco de estudo da pós-doutoranda Livia Cangiano, da USP, e professora colaboradora na UEMA. Ela utilizou como base a teoria dos circuitos da economia urbana, desenvolvida por Milton Santos na década de 1970. Essa teoria perspicaz divide a estrutura econômica das cidades em dois subsistemas distintos: o circuito superior e o circuito inferior. Enquanto o primeiro é caracterizado por grandes empresas que detêm alto nível de tecnologia, capital e organização, o segundo é composto por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas notável capacidade de adaptação às necessidades da população.
Cangiano ressalta a dificuldade enfrentada por moradores da periferia em acessar centros de consumo distantes, o que impulsiona a criação de um comércio local e diversificado. Neste circuito inferior, a flexibilidade é a chave, como evidenciado pela possibilidade de adquirir produtos em unidades, a exemplo de um único ovo, em vez da dúzia imposta pelas grandes redes. Tal prática não apenas atende a uma demanda econômica de quem tem poucos recursos, mas também reflete uma organização social do espaço que emerge da exclusão e da inventividade popular.
A Universalidade do Pensamento Geográfico de Santos
A pertinência das ideias de Milton Santos não se limita ao contexto brasileiro. Sua teoria dos circuitos urbanos tem se mostrado uma ferramenta analítica poderosa para entender as dinâmicas socioeconômicas em diferentes partes do globo. O projeto de pesquisa do qual Livia Cangiano faz parte, por exemplo, estende a aplicação dos conceitos de Santos para a compreensão das realidades urbanas em Gana, no continente africano, e em metrópoles europeias como Londres e Paris. Essa amplitude demonstra a capacidade de suas formulações de transcender especificidades locais, oferecendo um arcabouço para decifrar padrões universais de desigualdade e organização espacial em um mundo globalizado.
Milton Santos: Uma Vida Dedicada à Geografia Crítica e à Resistência
Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, Bahia, Milton Santos trilhou um caminho acadêmico brilhante que o levaria ao patamar de um dos mais importantes geógrafos do mundo. Concluiu seu bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e obteve o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França. Sua trajetória foi marcada não apenas pela erudição, mas também pela resiliência: exilado durante a ditadura militar no Brasil, lecionou em prestigiadas universidades na Europa, África e América Latina. Ao retornar ao país, consolidou sua produção intelectual na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP), influenciando gerações de pensadores.
O Geógrafo Negro e a Luta Contra o Racismo Estrutural
Como homem negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural inerente ao ambiente acadêmico, o que conferiu uma camada ainda mais profunda à sua obra. Ele não apenas redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade de maneira inédita, mas também se tornou um farol para outros intelectuais negros. A geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), testemunha a importância de Santos para sua própria formação, ressaltando o impacto de seu pensamento não só cognitivo, mas também humano.
Embora a negritude e a dimensão política da relação entre classe social e raça não fossem o tema central explícito de suas teorias, Milton Santos produziu uma teoria social crítica que se mostrou fundamental para a análise das questões raciais. Ele reconhecia as experiências de racismo que viveu, mesmo como professor universitário, e a necessidade de um esforço redobrado por parte dos negros para legitimar seu trabalho. Contudo, Santos jamais utilizou a vitimização, focando-se na produção intelectual robusta e na compreensão de que o espaço geográfico é, antes de tudo, um resultado direto de decisões políticas e econômicas.
Espaço Geográfico: Uma Construção de Desigualdades
A perspectiva de Milton Santos transformou a forma como se entende o espaço. Para ele, o espaço não é um mero palco neutro onde a vida acontece, mas um produto ativo e uma arena de disputas, moldado por interesses e decisões que refletem e perpetuam desigualdades. Dessa forma, a distribuição assimétrica de infraestrutura nas cidades – seja saneamento básico, transporte público eficiente ou acesso à internet – não é um acaso. Ela é, na verdade, o resultado de escolhas deliberadas que privilegiam determinados grupos sociais e regiões, marginalizando outros e consolidando as fissuras sociais existentes.
A obra de Santos oferece uma ferramenta crítica para desvendar essas lógicas, mostrando como a ausência de serviços essenciais em periferias ou a valorização exacerbada de áreas específicas são manifestações concretas de uma estrutura de poder que se materializa no território. Seu legado nos convida a questionar a neutralidade do espaço e a enxergar as cidades como palimpsestos vivos das desigualdades sociais e econômicas, impulsionando a busca por um planejamento urbano mais justo e inclusivo.
O Legado Centenário de um Pensador Essencial
Ao completar 100 anos do nascimento de Milton Santos, fica evidente que sua contribuição para a geografia e para as ciências sociais é um farol que continua a iluminar os caminhos da compreensão crítica do mundo. Suas teorias sobre os circuitos da economia urbana, a globalização perversa e o papel do espaço como ator social continuam a ser pilares para análises profundas sobre as desigualdades persistentes, o subdesenvolvimento e os desafios de uma urbanização acelerada. O geógrafo negro da Bahia, que enfrentou o exílio e o racismo, deixou um legado imperecível, lembrando-nos que o estudo do espaço é, essencialmente, o estudo da sociedade em suas mais complexas e desiguais manifestações, e que o conhecimento é uma ferramenta indispensável para a transformação social.


