O Brasil perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas e longevas do candomblé. Luiz Bangbala, reconhecido como o ogan mais antigo do país, faleceu no último domingo (15) aos 106 anos, deixando um legado de mais de oito décadas dedicadas à fé afro-brasileira. Seu corpo será sepultado na tarde desta terça-feira (17), no Cemitério Jardim Mesquita, localizado na Baixada Fluminense, marcando a despedida de um verdadeiro mestre.
Uma Vida Dedicada ao Candomblé
Nascido como Luiz Ângelo da Silva em 21 de junho de 1919, na capital baiana, Salvador, foi ali que Bangbala iniciou sua jornada no candomblé, ainda em sua juventude. Como ogan, sua função primordial era a de tocar os atabaques e conduzir o ritmo vibrante das cerimônias, essenciais para a recepção dos orixás. Sua maestria e dedicação fizeram dele uma referência incontestável. Após seu período de formação na Bahia, ele transferiu-se para Belford Roxo, na Baixada Fluminense, cidade que escolheu para viver e de onde sua influência religiosa e cultural se irradiou por décadas, tornando-se um pilar da comunidade local e nacional.
Legado Cultural e Reconhecimento Nacional
A atuação de Bangbala transcendeu os terreiros, fazendo dele um agente ativo na preservação e difusão da cultura afro-brasileira. Sua voz e seu ritmo ecoaram em diversos projetos culturais de relevância nacional, como a co-fundação do afoxé Filhos de Gandhy no Rio de Janeiro, um marco na disseminação dessa manifestação cultural no estado. Além disso, registrou dezenas de álbuns com cânticos de candomblé, todos interpretados na língua iorubá, garantindo a preservação de oralidades ancestrais. Em reconhecimento à sua trajetória e contribuição inestimável, Bangbala recebeu a Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República em 2014. Sua importância também foi celebrada pela escola de samba Unidos do Cabuçu, que o homenageou em 2020, e foi tema de uma exposição promovida pelo Centro Cultural Correios em 2024, atestando a perenidade de sua obra.
A Despedida de um Griot e Ancestral
O falecimento de Luiz Bangbala ocorreu na noite de domingo (15), no Rio de Janeiro, após um período de internação no Hospital Municipal Salgado Filho desde 31 de janeiro, devido a uma infecção renal. A notícia foi confirmada e comunicada por sua esposa, Maria Moreira, através das redes sociais, onde expressou a profunda dor pela perda. 'Hoje o candomblé perdeu uma das figuras mais importantes, o Comendador Ogan Bangbala, o mais velho ogan do Brasil, o mestre dos mestres. Meu coração sangra de tanta dor, vá em paz meu amor, meu orgulho, meu mestre', escreveu a viúva em uma homenagem emocionada.
O babalorixá Ivanir dos Santos resumiu a magnitude de Bangbala ao defini-lo como 'o grande griot das nossas tradições, não só dos ritos dos orixás, mas também dos ritos fúnebres'. O termo 'griot', de origem africana, designa os guardiões da memória e da história oral de um povo. Santos enfatizou que, embora o ogan tenha partido fisicamente, sua presença e ensinamentos permanecerão vivos. 'Ele nos deixou, mas vai sempre continuar presente aos nossos afazeres, no dia-a-dia dessas práticas. Agora ele também é um ancestral nosso. Que continua nos iluminando e sendo presente nas nossas ações dentro das casas de candomblé, dos blocos afros, dentro dessa cultura tão vasta que marca a identidade do povo afro-brasileiro', complementou, ressaltando o papel eterno de Bangbala na continuidade da fé e da cultura.
Com a partida de Luiz Bangbala, o Brasil não apenas se despede de um líder religioso centenário, mas também de um pilar da cultura afro-brasileira. Sua vida, dedicada à fé, à música e à preservação das tradições, garante que seu nome e seu ritmo continuarão a inspirar gerações, eternizando sua memória como um verdadeiro mestre e ancestral para as próximas.


