Inteligência Artificial e o Desafio ao Financiamento do Jornalismo Profissional no Brasil

Dinael Monteiro
Divulgação: Este site pode conter links de afiliados, o que significa que posso ganhar uma comissão se você clicar no link e efetuar uma compra. Recomendo apenas produtos ou serviços que uso pessoalmente e acredito que agregarão valor aos meus leitores. Agradecemos seu apoio!
© REUTERS/Dado Ruvic/Ilustração/Proibida reprodução

O avanço da Inteligência Artificial (IA) e a crescente popularização de resumos gerados por buscadores têm lançado uma sombra sobre o financiamento do jornalismo profissional no Brasil. Desde meados de 2024, impulsionada por funcionalidades como o AI Overviews do Google, a mudança no comportamento dos usuários da internet é notória: muitos optam por consumir os resumos fornecidos pelas IAs, deixando de clicar nos links diretos para os sites de notícias. Essa alteração no fluxo de tráfego direto não apenas compromete a sustentabilidade financeira dos veículos de comunicação, mas também levanta sérias preocupações sobre a integridade e a qualidade da informação que circula no país, especialmente em um cenário de proliferação de notícias falsas.

O Impacto Direto na Audiência e Publicidade

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que presta assessoria a 152 portais de notícias no Brasil, revelou dados alarmantes. Em um levantamento recente, a entidade constatou que um a cada quatro de seus veículos associados experimentou uma queda superior a 20% na audiência, resultado direto da diminuição do tráfego oriundo das ferramentas de busca. Carla Egydio, diretora de Relações Institucionais da Ajor, salienta a gravidade dessa perda, explicando que a audiência é uma métrica fundamental para a atração de publicidade, principal fonte de financiamento para muitos desses negócios. A migração de parte da verba publicitária para plataformas digitais já havia fragilizado o setor, e a ascensão dos resumos de IA agrava um contexto de crise já estabelecido no ecossistema jornalístico.

A Integridade da Informação em Xeque

Para além das questões financeiras, a forma como a IA consome e sintetiza o conteúdo jornalístico suscita preocupações quanto à qualidade e contextualização da informação. Carla Egydio aponta que os resumos gerados pela inteligência artificial raramente apresentam a totalidade do conteúdo das reportagens originais, o que pode levar a descontextualização e prejuízos significativos para o debate público. Há também casos de cópia literal de trechos, configurando plágio, o que adiciona uma camada de complexidade aos desafios éticos e legais. Internacionalmente, a repercussão de tais práticas já se manifesta: o veículo Business Insider, por exemplo, demitiu 21% de seus funcionários em maio de 2024, atribuindo parte dessa reestruturação à queda de tráfego impulsionada pelos resumos de IA, conforme explicitado por sua direção executiva.

O Marco Regulatório da IA: Uma Solução em Discussão

Diante desse cenário desafiador, um projeto de lei (PL 2338/2023) que tramita na Câmara dos Deputados, conhecido como Marco Regulatório da IA, surge como uma possível rota para mitigar os impactos negativos. A proposta, originária do Senado Federal, prevê que as plataformas digitais remunerem os criadores de conteúdo pelo uso de obras e reportagens protegidas por direitos autorais, incluindo o jornalismo. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem atuado ativamente na defesa da aprovação do PL, visando fortalecer o jornalismo profissional e garantir a justa remuneração pelo trabalho dos jornalistas.

- Anúncio -
Ad image

Obstáculos e Perspectivas para a Legislação

Apesar da relevância do tema e da prioridade anunciada pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, o projeto de lei não registrou avanços significativos no último semestre. Samira de Castro, presidenta da Fenaj, atribui essa lentidão à intensa atuação do lobby das grandes empresas de tecnologia (as 'big techs'), que buscam remover as seções do texto que tratam especificamente da remuneração por direitos autorais. Embora reconheça que o PL possa ter fragilidades, como a falta de mecanismos específicos de transparência sobre os conteúdos jornalísticos utilizados para treinar os modelos de IA – um ponto que poderia ser abordado em regulamentações futuras –, Samira reitera que a matéria representa um passo fundamental para assegurar a sustentabilidade e a valorização do jornalismo no Brasil.

Em suma, a emergência da Inteligência Artificial nos buscadores representa um duplo desafio para o jornalismo profissional brasileiro: uma ameaça direta à sua viabilidade econômica e um risco à integridade da informação. A discussão em torno do Marco Regulatório da IA é crucial para estabelecer um equilíbrio entre a inovação tecnológica e a proteção do conteúdo autoral, garantindo que o jornalismo continue a desempenhar seu papel essencial na sociedade democrática.

Compartilhar este arquivo
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *