A esperança de uma vida mais estável e próspera no Líbano foi brutalmente interrompida para a família da brasileira Manal Jaafar, de 47 anos, e seu marido, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos. O casal, que havia retornado ao país de origem de Ghassan após doze anos residindo no Brasil, foi vítima fatal de um ataque israelense no sul do Líbano no último domingo, dia 26. Tragicamente, um dos filhos brasileiros do casal, Ali Ghassan Nader, de apenas 11 anos, também pereceu no bombardeio. Outro filho, presente no momento do ataque, sobreviveu e encontra-se hospitalizado, conforme confirmado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil na noite seguinte.
O Sonho Interrompido de uma Nova Vida
Manal, Ghassan e seus filhos residiram em Foz do Iguaçu, Paraná, por mais de uma década, entre 1998 e 2010. Em busca de um futuro mais tranquilo e da oportunidade de se estabelecerem na terra natal de Ghassan, a família optou por regressar ao Líbano. Ghassan, um empresário e ativista humanitário conhecido na comunidade libanesa de Foz do Iguaçu por seu intelecto e engajamento social, planejava usar os recursos acumulados no Brasil para proporcionar uma rotina leve, dedicada aos estudos dos filhos e à vida em família. A decisão de retornar à sua residência, no distrito de Bint Jeil, no sul do Líbano, foi tomada após a vigência de um cessar-fogo que, lamentavelmente, não impediu a subsequente ofensiva.
A Dor da Comunidade e a Rotina de Ataques Civis
A notícia da morte da família Jaafar-Nader reverberou com profunda tristeza na comunidade libanesa, tanto no Brasil quanto no Líbano. Ali Farhat, jornalista libanês e amigo próximo de Ghassan Nader, expressou o luto e a decepção generalizada, ressaltando que esta é uma dor diária para muitos. Ele destacou que o Líbano já contabiliza mais de 2.500 vítimas em ataques israelenses, sendo a grande maioria civis, alheios aos conflitos. Farhat enfatiza que os bombardeios não diferenciam alvos militares de civis, atingindo indiscriminadamente cidades, casas e até mesmo mesquitas e cemitérios, classificando a situação como um massacre contra a geografia e a memória do Líbano.
Acusações de Genocídio e a Perspectiva Geopolítica
O jornalista Ali Farhat não hesitou em comparar a intensidade e a natureza dos ataques israelenses no Líbano com o que ocorre na Faixa de Gaza, levantando a grave acusação de genocídio. Ele aponta que nenhuma área no sul do Líbano, e nem mesmo na capital Beirute, permanece protegida dos bombardeios. A ofensiva, inserida no contexto de uma ampla ação promovida por Estados Unidos e Israel contra países da região, reflete, segundo ele, uma política de terra arrasada. A ausência de avisos prévios e a alta proporção de civis entre as vítimas, conforme dados do Ministério da Saúde libanês, reforçam a preocupação com a violação de direitos humanos.
Paralelos Históricos e a Reação Brasileira
Melina Manasseh, integrante da comunidade libanesa no Brasil e da Federação Árabe da Palestina no Brasil, traça paralelos entre a atual situação no Líbano e a histórica ocupação israelense na Palestina. Ela lamenta a morte da família brasileira como mais um exemplo das consequências da política bélica expansionista de Israel, que, em sua avaliação, desconsidera resoluções da ONU. Manasseh recorda que esta não é a primeira vez que cidadãos brasileiros são vítimas das forças de ocupação e menciona a ocupação militar israelense do sul do Líbano por 18 anos, indicando que a dinâmica atual de assentamento e controle se assemelha à praticada na Palestina. Apesar da tragédia e da profunda consternação nas comunidades envolvidas, Manasseh observa que a notícia da morte dos dois brasileiros não gerou uma grande mobilização no cenário nacional.
A morte de Manal, Ghassan e seu filho Ali é um doloroso lembrete da fragilidade da vida em regiões conflagradas e do impacto devastador dos conflitos armados sobre civis inocentes. A busca por paz e estabilidade de uma família transformou-se em mais um trágico episódio na rotina de violência que assola o Líbano, ecoando um sofrimento coletivo e a urgência de soluções que garantam a segurança e a dignidade humana em meio a complexas disputas geopolíticas.


