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Maternidade na Ciência: O “Efeito Tesoura” Aprofunda Barreiras para Pesquisadoras no Brasil

Dinael Monteiro
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© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Apesar de o Brasil formar, há mais de duas décadas, um número maior de doutoras em comparação com doutores, a presença feminina nos quadros docentes de graduação e pós-graduação permanece minoritária. Essa disparidade se agrava na distribuição de bolsas de produtividade, destinadas a cientistas de destaque, das quais mulheres recebem apenas um terço. Este cenário, conhecido como o <b>"efeito tesoura"</b>, ilustra o corte progressivo de mulheres conforme avançam na carreira acadêmica. No entanto, o impacto ainda mais severo sobre as mães cientistas só começou a ser plenamente reconhecido e debatido nos últimos anos, revelando uma camada adicional de desafios nesse ambiente.

A Desigualdade Persiste: Maternidade e a Desaceleração Acadêmica

A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernanda Staniscuaski, é uma das vozes que emergiu para discutir essa realidade. Ela própria vivenciou um período de desaceleração profissional em plena ascensão de carreira após se tornar mãe, uma pausa que se estendeu além do esperado e a inseriu em um ciclo de difícil reversão. "Quanto menos a mulher produz, menos ela vai ter oportunidade para ganhar financiamento, para conseguir bolsas para orientandos e obviamente isso vai fazer com que ela produza menos ainda", explica Fernanda. Ela enfatiza a necessidade de reconhecer essa pausa pela maternidade e, crucialmente, "precisar das condições de retorno".

Parents in Science: Uma Década de Luta por Reconhecimento e Dados

Ao compartilhar suas angústias com outras cientistas e mães, Fernanda percebeu que sua experiência não era isolada. Em 2016, junto a outras seis mães e um pai, ela fundou o movimento Parents in Science. A iniciativa, que completa uma década neste ano com mais de 90 cientistas associados (majoritariamente mulheres), nasceu para debater a parentalidade no meio acadêmico e preencher uma grave lacuna: a ausência de dados oficiais sobre o número de pesquisadores e docentes com filhos no Brasil. Essa falta de informação impede uma medição precisa do impacto da maternidade na progressão de carreira.

O movimento destaca que os padrões desiguais da sociedade brasileira, onde as mães tradicionalmente carregam o ônus do cuidado, são reproduzidos no ambiente acadêmico. "Existe uma mudança cultural em andamento, com uma participação maior dos pais, mas a gente está longe de ser uma sociedade onde o cuidado é totalmente dividido, não só entre mães e pais, mas como algo coletivo", complementa a fundadora, ressaltando a urgência de uma transformação cultural profunda.

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Os Números Revelam: Maternidade e o Impacto na Permanência Acadêmica

Um documento recente publicado pelo Parents in Science, analisando a entrada e permanência na docência de pós-graduação, oferece dados contundentes. O levantamento, que incluiu cerca de mil docentes, examinou os processos de credenciamento e recredenciamento, que avaliam a produtividade acadêmica. As diferenças entre pais e mães são significativas, especialmente nos casos de descredenciamento.

Entre os pais, 43,7% deixaram o programa por iniciativa própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. No entanto, entre as mães, a situação se inverte drasticamente: apenas 24,6% saíram a pedido, ao passo que 66,1% foram descredenciadas por não atenderem mais à produção mínima exigida. Além disso, a reinserção no sistema após o descredenciamento é notavelmente mais difícil para mães. Das que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, em contraste com 25% dos pais. Entre os que saíram a pedido, 25% das mães não retornaram, enquanto para os pais esse percentual foi de apenas 7,1%.

Interseccionalidade: Ampliando o Debate sobre Barreiras na Ciência

Fernanda Staniscuaski enfatiza que a questão de gênero, embora clara, é interseccionada por outras barreiras. "Existe uma questão de gênero que é bem clara, mas há também uma influência muito grande de raça. As mulheres pretas, pardas e indígenas continuam sendo o grupo mais sub-representado", afirma. Ela aponta para a necessidade de considerar as múltiplas camadas de discriminação, incluindo a situação de mães de filhos com deficiência, que enfrentam ainda mais dificuldades para ocupar espaços na academia. Essa abordagem interseccional é crucial para construir um ambiente acadêmico verdadeiramente inclusivo.

Desafios Iniciais: O Acesso e a Permanência Desde o Início da Jornada

Os obstáculos enfrentados pelas mães cientistas não se manifestam apenas em fases avançadas da carreira. O acesso e a permanência já no início da jornada acadêmica podem ser repletos de desafios. A assistente social Cristiane Derne, que cursa mestrado em Serviço Social na PUC/Rio, exemplifica essa realidade, tendo enfrentado percalços na graduação já como mãe. Suas experiências ressaltam que as dificuldades se estendem por todo o percurso acadêmico, desde o ingresso até a consolidação profissional, demandando atenção e políticas de apoio abrangentes para garantir a inclusão e o sucesso dessas mulheres.

A Necessidade de Apoio e Mudança Cultural

A evidência apresentada pelo movimento Parents in Science e as narrativas de pesquisadoras como Fernanda Staniscuaski e Cristiane Derne sublinham a urgência de políticas e uma mudança cultural para mitigar o "efeito tesoura" e suas consequências para as mães na ciência. É fundamental que o ambiente acadêmico reconheça e se adapte às realidades da parentalidade, implementando medidas que garantam não apenas o acesso, mas a permanência e o desenvolvimento pleno da carreira de mães cientistas. A luta por uma ciência mais inclusiva e equitativa exige não apenas a visibilização dessas barreiras, mas a construção ativa de soluções que permitam que o talento feminino, especialmente materno, floresça sem impedimentos desnecessários.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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