Há quase meio século, a vida do caiçara Antônio de Souza se entrelaça com os manguezais do litoral do Paraná. Conhecido como Pano, ele representa a essência da subsistência e da cultura local, dedicando-se à captura do caranguejo-uçá, uma prática que sustenta sua família e movimenta a economia regional. Sua experiência e profundo conhecimento do ecossistema marinho o tornam um pilar na comunidade e um valioso colaborador em iniciativas de conservação.
A Pesca Artesanal e a Economia do Caranguejo no Paraná
A atividade de Antônio, concentrada durante o período de captura liberada entre dezembro e meados de março, é mais do que um meio de vida; é um compromisso com a sustentabilidade. Ele defende fervorosamente o defeso, uma moratória anual essencial para a reprodução do caranguejo-uçá, visando garantir que futuras gerações também possam desfrutar desse recurso vital. O impacto econômico dessa cadeia produtiva é notável: em 2024, a pesca de caranguejo movimentou cerca de R$ 9,8 milhões no Paraná, com cidades como Guaraqueçaba, Guaratuba, Paranaguá, Antonina e Pontal do Paraná se destacando como centros dessa importante indústria. Antônio de Souza é também um ativo participante do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), iniciativa da Associação Mar Brasil, voluntariamente patrocinada pelo Programa Socioambiental da Petrobras desde 2009.
Descobertas Preocupantes: Contaminantes em Caranguejos-Uçá
Em meio aos esforços de monitoramento ambiental do Rebimar no litoral paranaense, pesquisadores vêm investigando a saúde dos manguezais e seus habitantes. A professora Cassiana Baptista Metri, da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e integrante do Rebimar, lidera um estudo detalhado sobre a composição química dos caranguejos-uçá. Sua pesquisa confirmou a presença de elementos importantes para o corpo humano, como zinco, manganês e magnésio. No entanto, o estudo também revelou um dado alarmante: a detecção de contaminantes indesejáveis, como mercúrio e chumbo, concentrados nos crustáceos. A incidência desses metais pesados, contudo, não foi uniforme, apresentando variações significativas conforme o local e a estação do ano.
Impacto na Saúde Humana e o Contexto Ambiental Complexo
A identificação de mercúrio e chumbo levanta sérias questões sobre as potenciais implicações para a saúde humana. Embora a professora Cassiana Metri ressalte a necessidade de estudos mais aprofundados para quantificar o risco do consumo, ela alerta para o comportamento desses metais, que podem se acumular no organismo ao longo do tempo. Felizmente, o consumo de caranguejo-uçá na região é tradicionalmente sazonal e localizado, geralmente no verão, fora do defeso, o que pode mitigar o risco de exposição diária e contínua. A área do manguezal, vizinha a ecossistemas diversos como o intenso tráfego do Porto de Paranaguá, a Ilha da Cotinga (terra indígena) e a turística Ilha do Mel, sugere uma complexa interação de fatores ambientais que podem influenciar a presença dos contaminantes.
A Resiliência dos Crustáceos e as Novas Hipóteses Científicas
Um aspecto intrigante da pesquisa é a observação de que, apesar da contaminação, os caranguejos-uçá estudados apresentavam um estado de saúde "normal", realizando suas atividades vitais sem aparente prejuízo. Esse achado levou a pesquisadora a formular duas hipóteses promissoras. A primeira sugere que os caranguejos podem eliminar parte dos contaminantes através da carapaça, que é trocada anualmente no processo de muda. A segunda linha de investigação explora a dieta dos caranguejos, rica em folhas de mangue. Acredita-se que os taninos presentes nessas folhas possam conferir uma atividade antioxidante, protegendo os crustáceos dos efeitos nocivos dos metais. Essa linha de pesquisa, se confirmada, pode até abrir caminho para o desenvolvimento de novos produtos na indústria farmacêutica.
As descobertas do Rebimar, com o apoio de colaboradores como Antônio de Souza, sublinham a importância do monitoramento contínuo e da pesquisa científica para a conservação dos ecossistemas marinhos e a salvaguarda da saúde pública. Entender a dinâmica dos contaminantes e os mecanismos de defesa natural dos caranguejos-uçá é fundamental para garantir a sustentabilidade da pesca, a proteção dos manguezais e a segurança alimentar das comunidades que dependem desses valiosos recursos naturais.


