Milhares de mulheres ocuparam a Avenida Paulista, em São Paulo, neste Dia Internacional da Mulher, desafiando a forte chuva que caía sobre a capital. O ato, que se estendeu em caminhada até a Praça Roosevelt, uniu vozes em um clamor nacional contra a violência de gênero e em defesa de novas condições trabalhistas. Com faixas e cânticos de empoderamento, as manifestantes da capital paulista se juntaram a protestos simultâneos que mobilizaram diversas cidades brasileiras.
A Urgência no Combate à Violência de Gênero
Um dos pilares centrais da manifestação foi a demanda por medidas eficazes no combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. Alice Ferreira, cofundadora do Levante Mulheres Vivas, enfatizou a insuficiência de meros pactos ou notas de apoio, exigindo orçamentos públicos e ações concretas nas esferas Executiva, Judiciária e Legislativa. A pauta ganhou um caráter ainda mais simbólico com instalações artísticas, como sapatos femininos dispostos ao longo da avenida para representar as vítimas de feminicídio no país.
Outra intervenção notável foi a exposição de bonecas em frente ao Fórum Pedro Lessa, denunciando a violência sofrida por crianças e a misoginia que permeia algumas instâncias do judiciário. Ferreira citou o recente escândalo envolvendo a absolvição de um homem acusado de estuprar uma menor de idade em Minas Gerais, ressaltando a importância de reforçar a proteção de crianças e adolescentes. O movimento também defende a aprovação de um projeto de lei em trâmite no Congresso Nacional que visa tipificar a misoginia como crime, combatendo o ódio contra mulheres, especialmente em um cenário onde discursos misóginos são impulsionados em plataformas digitais.
A gravidade da situação é evidenciada pelos números: em São Paulo, o ano de 2023 registrou 270 feminicídios, um aumento de 96,4% em comparação com 2021 e um recorde desde o início da série histórica em 2018.
Fim da Escala 6×1 e a Luta por Dignidade no Trabalho
Além do fim da violência, as manifestantes também levantaram a bandeira pela extinção da escala de trabalho 6×1, um ponto crucial para a melhoria das condições de vida das mulheres trabalhadoras. Luana Bife, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de São Paulo, explicou que a redução da jornada de trabalho e o fim do regime 6×1 são vitais, pois muitas mulheres acumulam a responsabilidade do sustento e cuidado de suas famílias, enfrentando uma verdadeira 'escala 7 por 0'.
Para Bife, a mudança nas leis trabalhistas não representa apenas um período de descanso, mas uma oportunidade para que as mulheres tenham tempo para o autocuidado e decidam 'como querem estar no mundo', promovendo maior autonomia e qualidade de vida. A demanda insere-se na luta contra a violência política e o extremismo que busca controlar corpos e vozes femininas, ampliando a discussão para a soberania e autodeterminação.
União de Movimentos e a Necessidade de Políticas Públicas Permanentes
O ato, intitulado “Em Defesa da Vida das Mulheres”, demonstrou a força da articulação social, contando com a participação de diversos movimentos sociais e sindicais. Entre eles, a União Nacional por Moradia Popular, o Movimento de Mulheres Camponesas, a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Marcha Mundial das Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).
A ativista Luana Bife reforçou a importância de que pautas como a violência contra a mulher e a garantia de direitos sejam enfrentadas por meio de políticas públicas sólidas e permanentes, que independam das gestões governamentais. A persistência na defesa da vida das mulheres e meninas exige um arcabouço de políticas públicas e sociais firmes, que se mantenham ativas para combater as diversas formas de violência e assegurar a plena cidadania.
A manifestação em São Paulo, e em todo o Brasil, reverberou um coro coletivo por mudanças estruturais. As mulheres, em sua diversidade, reafirmaram o compromisso com a construção de uma sociedade onde a vida seja valorizada, a violência combatida com seriedade e os direitos trabalhistas garantidos, pavimentando o caminho para um futuro de maior equidade e justiça.


