Em um movimento estratégico para salvaguardar a integridade do processo eleitoral brasileiro frente aos avanços tecnológicos, o ministro Gilmar Mendes, atuando como substituto no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apresentou uma proposta inovadora. A iniciativa visa a criação de uma força-tarefa composta por peritos técnicos e instituições acadêmicas, dedicada à identificação célere de conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) durante o período eleitoral, com foco especial nos chamados deepfakes – manipulações audiovisuais de alto realismo. A sugestão foi feita na abertura das audiências públicas para discutir as resoluções eleitorais de 2024, ressaltando a urgência de uma abordagem proativa e preventiva.
A Estratégia Proativa Contra a Desinformação Sintética
A proposta central do ministro Mendes destaca a necessidade de o TSE transcender uma postura meramente reativa ou punitiva. Ele argumenta que o fortalecimento da capacidade técnica do tribunal é essencial para enfrentar os desafios impostos pelas deepfakes e outros conteúdos sintéticos. A força-tarefa seria estruturada para uma análise pericial ágil, com o credenciamento prévio de especialistas e centros de pesquisa universitários. Essa colaboração técnico-científica é vista como um pilar para garantir maior segurança, agilidade nas decisões e legitimidade institucional na resposta aos complexos desafios associados ao uso indevido da inteligência artificial nas campanhas políticas.
Acordos com Gigantes da Tecnologia e Legislação Vigente
Além da criação da força-tarefa, Gilmar Mendes propôs que a Justiça Eleitoral estabeleça acordos de cooperação com empresas provedoras de ferramentas de IA que geram conteúdos de imagem e áudio. O objetivo desses pactos seria implementar medidas conjuntas para impedir o uso abusivo dessas tecnologias. A colaboração com esses atores do setor tecnológico é considerada fundamental para viabilizar mecanismos preventivos, como a rastreabilidade de conteúdos, a rotulagem de materiais gerados artificialmente e a criação de salvaguardas que coíbam a produção de deepfakes. Tais ações permitiriam respostas mais rápidas e eficazes diante de usos ilícitos ou eleitoralmente desestabilizadores. É importante notar que as regras eleitorais atuais já vedam o deepfake, definindo-o como qualquer conteúdo fabricado digitalmente para criar, substituir ou alterar a imagem ou voz de uma pessoa, viva, falecida ou fictícia.
O Contexto das Audiências Públicas e o Caminho das Novas Regras
A sugestão do ministro Gilmar Mendes foi apresentada no âmbito das audiências públicas que o TSE realiza para debater e aprimorar as resoluções que regerão as eleições municipais de 2024. Em janeiro, a Justiça Eleitoral publicou doze minutas de resolução, abrindo um prazo para que cidadãos e instituições enviassem sugestões. Algumas dessas propostas foram selecionadas para apresentação e debate ao vivo. A consulta à sociedade civil é um procedimento obrigatório a cada ciclo eleitoral, conforme a legislação vigente, e visa garantir a transparência e a legitimidade das normas. O plenário do TSE tem até o dia 5 de março do ano eleitoral para discutir e aprovar todas as resoluções, moldando assim o cenário jurídico para o pleito que se aproxima.
A iniciativa de Gilmar Mendes reflete a crescente preocupação do Judiciário com o impacto da inteligência artificial na esfera pública e, em particular, na democracia. Ao propor a força-tarefa e os acordos com empresas de tecnologia, o TSE busca equipar-se com ferramentas e estratégias que garantam a autenticidade da informação e a lisura do processo eleitoral, assegurando que o debate público não seja deturpado por manipulações sintéticas, fortalecendo a confiança dos eleitores na integridade das eleições.


