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Estudo de Duas Décadas na Amazônia Refuta Teoria da Savanização e Revela Capacidade de Resiliência da Floresta

Dinael Monteiro
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© REUTERS/Amanda Perobelli/Direitos Reservados

Um estudo de longo prazo conduzido na região de Querência, Mato Grosso, uma das áreas da Amazônia mais impactadas pelo desmatamento nas últimas décadas, trouxe à luz descobertas cruciais sobre a capacidade de recuperação da floresta tropical. Após 22 anos de minuciosa observação, a pesquisa desmistificou uma teoria científica predominante desde a década de 90, oferecendo uma perspectiva renovada sobre o futuro da floresta diante das crescentes pressões ambientais.

A principal conclusão do trabalho refuta a tese da savanização, que previa a substituição das densas formações florestais por vegetação rasteira, típica de savanas, em decorrência de secas e queimadas. Em vez disso, os cientistas testemunharam um processo notável: as mesmas espécies florestais que compõem a Amazônia conseguiram retomar e regenerar os espaços severamente afetados, demonstrando uma resiliência inesperada.

Desvendando a Resiliência Amazônica: O Estudo em Querência

A pesquisa, iniciada em 2004, focou em avaliar os impactos cumulativos de secas extremas e incêndios florestais sobre a biodiversidade e estrutura da floresta. O descarte da teoria da savanização é um marco significativo, pois questiona prognósticos alarmistas sobre o colapso iminente da Amazônia em savanas. Segundo Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, o estudo evidencia que a floresta é capaz de se recuperar e retornar a áreas que foram intensamente degradadas.

Contudo, essa surpreendente capacidade de autorregeneração não é incondicional. O biólogo ressalta que uma série de fatores são essenciais para que a floresta consiga efetivamente retomar seu espaço. A interrupção dos incêndios recorrentes é a condição primária, mas a proximidade de áreas de floresta intacta também se mostra vital, servindo como fonte de dispersão de sementes. A presença de uma matriz de vegetação nativa próxima e de animais dispersores, que auxiliam no transporte de sementes pelo vento, é crucial para acelerar e garantir esse processo de recuperação, sem o qual o restabelecimento seria mais demorado e incerto.

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Metodologia e Primeiros Impactos da Degradação

A metodologia do estudo envolveu o monitoramento de uma área de 150 hectares. Inicialmente, foi realizado um levantamento detalhado para documentar a vegetação original, bem como as espécies de animais e insetos que habitavam o local. O terreno foi dividido em três frações de 50 hectares cada, onde diferentes regimes de fogo foram aplicados experimentalmente.

Duas das frações foram submetidas a queimadas controladas: uma a cada três anos e outra anualmente, até 2010. A terceira fração permaneceu intocada pelo fogo, servindo como área de controle. As observações iniciais, logo após os incêndios, revelaram um empobrecimento drástico da biodiversidade. As áreas queimadas anualmente registraram uma queda de 20,3% na riqueza de espécies, enquanto a fração queimada a cada três anos sofreu uma redução ainda maior, de 46,2%.

Adicionalmente aos incêndios, a área de estudo foi atingida por uma tempestade de vento em 2012, que causou a mortalidade de 5% das árvores. Essa combinação de distúrbios inicialmente transformou completamente a paisagem, registrando um cenário de degradação intensa. No entanto, o passar do tempo revelaria a notável capacidade da floresta de curar suas próprias 'cicatrizes'.

A Recuperação Surpreendente e Seus Desafios

Apesar do cenário inicial de empobrecimento e transformação, as observações ao longo dos anos trouxeram resultados animadores. O pesquisador Maracahipes descreve que, após um período inicial com o dossel (cobertura formada pela copa das árvores) aberto, o que permitiu o crescimento de gramíneas, especialmente nas bordas da floresta, o dossel começou a fechar-se. Atualmente, a área registra apenas cerca de 10% de gramíneas, e o ambiente se assemelha muito mais a uma formação florestal. Ele destaca que o interior da floresta se recuperou significativamente mais rápido que as bordas, e a composição de espécies nativas está progressivamente retornando.

Contudo, é crucial notar que a recuperação, embora notável, não significa um retorno integral ao estado original. A floresta regenerada ainda apresenta uma margem inferior de espécies, variando entre 31,3% e 50,8% a menos em comparação com seu estado pré-incêndio, dependendo da intensidade da degradação sofrida. Isso indica que, mesmo com a recuperação visual, há uma mudança na estrutura e na diversidade biológica da floresta.

Uma Nova Floresta, Mais Vulnerável

A floresta que emerge após a recuperação se encontra em uma “nova condição”, explica Maracahipes. Embora retome sua forma, ela não restabelece todos os serviços ecossistêmicos que fornecia anteriormente, tornando-se intrinsecamente mais vulnerável. As espécies que compõem essa nova formação frequentemente possuem características que as tornam mais suscetíveis a distúrbios, como casca fina e baixa densidade da madeira, o que as faz morrer mais facilmente em eventos extremos.

Esta vulnerabilidade é agravada por duas grandes ameaças. Primeiramente, as interferências antrópicas, como o fogo, permanecem um risco constante. Em segundo lugar, as secas, impulsionadas pelas mudanças climáticas globais, tornam-se cada vez mais extremas e frequentes, pressionando a capacidade da floresta em regeneração. Apesar de as espécies florestais manterem a capacidade de se hidratar durante o processo de restabelecimento, os cientistas enfatizam a necessidade urgente de recuperar mais áreas degradadas para garantir o acesso sustentável à água e fortalecer a resiliência geral da Amazônia.

O estudo, portanto, oferece uma mensagem de esperança cautelosa. A Amazônia, outrora conhecida como “Arco do Desmatamento”, demonstra potencial para ser transformada no “Arco da Restauração”. Essa transição, porém, dependerá da vontade humana de proteger e auxiliar os processos naturais de recuperação, aproveitando a notável, mas limitada, capacidade de resiliência da maior floresta tropical do mundo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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